sábado, 26 de novembro de 2011

Profundas Marcas - conto

Conto
PROFUNDAS MARCAS
por Rejane (Mel) Britto



         Ele já passava um pouco dos quarenta.

         Nem sempre fora um homem calmo. Já tivera muita agitação e aventuras, mas, passados os anos, acostumara-se à vida pacata de pai de família.
         Sentia prazer em ficar em casa, às voltas com a mulher e os dois filhos, sentado à frente da televisão com uma enorme travessa cheia de pipocas.

         Gostava da vida tranqüila que tinha agora.

         Naquele dia ele estava radiante. Festejariam, ele e a mulher, seus 16 anos de convivência onde, apesar das dificuldades financeiras dos primeiros anos, tinham acumulado muitos momentos de harmonia e ternura.

Sentia-se bem. Vários foram os casamentos que ele presenciou serem desfeitos e estava orgulhoso da vida que conseguira construir. Tinham até convidado alguns amigos com quem compartilhariam essa felicidade.

         A festa estava por começar.

         Foi então que ele a viu... 

Lá estava ela, surpreendentemente com a mesma aparência com que a tinha visto da última vez.
         Com o mesmo ar de flor em botão prestes a se abrir que sempre lhe fora tão característico. Um pouco mais amadurecida, talvez...

         Mas por que, depois de tanto tempo, ela foi aparecer para atormentá-lo?

         Lembrou, com amargura, de todo o constrangimento que ela lhe causara a cada vez que aparecia.
         Desde aquela época, há muitos anos, ele jamais esperou revê-la e até já a tinha esquecido totalmente. Imaginou que se tivesse ido de uma vez por todas, mas, que ilusão, ali estava ela agora, descaradamente na sua cara!

         Aquela situação inesperada e a recordação de todas as pequenas frustrações mal resolvidas acabaram por suscitar em seu íntimo toda a raiva contida e seus instintos mais vis.

         Naquele momento de angústia tomou a decisão. Teria que acabar com esse assunto de forma definitiva. Jamais, em nenhum outro momento de sua vida, estivera tão preparado para enfrentá-la. Os anos o tornaram mais confiante em sua própria capacidade de resolver os problemas. E ela o havia desafiado.

         Preparou-se...
         Esperou pacientemente por um momento em que estivessem a sós, ela e ele.
         Não queria testemunhas da atrocidade que estava por acontecer.

Enfim, os dois sozinhos...

         Encarou-a com firmeza, sorrindo por dentro antecipando o sabor da vingança. Já não bastara tudo o que ela o fizera sofrer na juventude?

         E então, num gesto frio e calculado, cravou-lhe impiedosamente as unhas.
         Viu-a, contorcendo-se, ficar vermelha até sangrar.

         Não teve um mínimo de compaixão. Tudo o que sentia era um ligeiro desconforto, uma pequena sensação de nojo, que, acreditava, devia-se mais à raiva que sentia do que à agressão que estava a cometer.

         Acabaria de vez com ela.

         Ficou assim por alguns momentos, que lhe pareceram intermináveis, apertando-a fortemente até vê-la esvair-se em meio ao sangue.

         Sentia um misto de ódio e prazer.

         Uma espécie de euforia foi tomando conta enquanto em sua mente vislumbrava, com satisfação, como seria sua vida daí para diante.

         Nunca mais iria tornar a vê-la.

         Não mais passaria a vergonha de ser visto com ela.
         Não teria nunca mais, definitivamente,  essa terrível "espinha" no queixo!

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Epílogo:

         Hoje ele é um homem feliz e tranqüilo e não tem nenhum remorso do ato que cometeu. Vez por outra, ainda sente uma pequena sensação de formigamento que o deixa em alerta, mas, até agora, nada de mais grave ocorreu.

         Quanto a ela, acredita-se que não foi eliminada de vez. Há rumores que  teria sido vista na companhia de diversos homens e, promíscua como sempre foi, até de algumas mulheres. Ouviu-se, ainda, que ela já causou reações semelhantes em muitas outras ocasiões.

         Alerta-se a quem porventura a encontrar que não se deixe tomar por sentimentos de desespero e aja com o máximo de cautela, evitando, dessa maneira, as profundas marcas que "elas" costumam deixar.



Profundas Marcas – Rejane (Mel) Britto
conto publicado em 1998

*este conto está sob uma licença Creative Commons