terça-feira, 26 de julho de 2011

O gato


                 O   g a t o
                                                Rejane (Mel) Britto


                          é dono da noite
                          não pede licença
                          com passo matreiro
                          chega do meu lado

                          é dono de mim
                          invade o espaço
                          o olhar ligeiro
                          o toque safado

                          é dono da farra
                          me pega no colo
                          minhas costas arranha
                          e faz um fricote

                          me beija me agarra
                          me rola no solo
                          e depois me banha
                          com a língua chicote

                          mordisca minha orelha
                          sussurra e me assanha
                          me deixa de quatro
                          ronrona com manha
        
                          eu e meu gato

                          na cena
                          do ato

sábado, 23 de julho de 2011

O lobo


            O lobo
               por Rejane (Mel) Britto

            Grande boca
            escancarada
            não me trate
            por covarde.
            Se o mel é seu sustento
            que ele adoce sua baba.


            Queima-lhe a face,
            assanhada,
            a doce língua
            que arde.
            No prazer do linimento,
            é aí que a fera se acaba.


            Do lobo
            sobra a carcaça.
            Não mais uiva
            nem reclama.
            Nem que seja por pirraça,
            o predador vira caça,
            da sua pele
            faço minha cama.



    *Esta poesia está sob uma licença Creative Commons

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Casulo


     Casulo
       Rejane (Mel) Britto


    a poesia
    que desperta
    libera
    a imaginação

    da pena
    e das linhas
    que escrevo
    lanço asas

    - de borboleta -


                                                                    

No telhado

poetrix

          No telhado

        no orvalho a arisca gata
        mia melosa no cio:
        joguem botas de salto 15

                 Rejane (Mel) Britto

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Hoje matei um poema

    Hoje matei um poema...

    Quebrei sua métrica
    roubei seu decoro
    pilhei seu sentido
   
    Desfiz suas defesas
    invadi suas entranhas
    feri-o , deixei-o despido

    Réquiem infame
    para os versos sem assunto:
    O poema jaz defunto...

               Rejane (Mel) Britto

Fsssssssst


    Fsssssssst...

    algo em você
    me desata

    algo em você
    me arrebata
                  
    rolo
    e me assanho
    lambo
    e te arranho

    vou de santa
    a depravada
                  
    arrepiada
    feito gata

        Rejane (Mel) Britto

*do livro Morango-Fresa
Poetas de Orpheu, vol 13
Ed. Orpheu - 2003

terça-feira, 19 de julho de 2011

Poema obsceno


             Poema obsceno

             Bolina
             essa menina
             de virilha depilada

             Olhar inocente
             acinte indecente
             vulva molhada

             Mulher que brinca
             de ser devorada

                 por Rejane (Mel) Britto

*do livro Morango-Fresa
Poetas de Orpheu, vol 13
Ed. Orpheu - 2003

Espelhos

        Espelhos


        Esse semblante que vejo
        no espelho refletido
        às vezes não sei se conheço
        às vezes parece comigo

        O que por trás dele se esconde?
        Somos íntimos há tanto tempo
        e somos tão diferentes
        Por que ele não me responde?
        Por que mesmo frente a frente
        insiste em virar-me as costas?

        Reflexos não tem respostas
        São apenas ecos...

                por Rejane (Mel) Britto

Orgásmico

        Orgásmico

        Poesia é coito
        (da palavra aflita
        que invade sensações).

        O âmago
        que me transborda
        (afoito).

        - tesão e êxtase -

        Depois descansa sereno,

        saciado,
        pleno...

              por Rejane (Mel) Britto

do livro Poetas do Café vol 3
Ed. Grafite Ltda. - 2007

sábado, 16 de julho de 2011

Inscrição para uma lareira


        Inscrição para uma lareira
                      Mário Quintana


       A vida é um incêndio: nela
       dançamos, salamandras mágicas
       Que importa restarem cinzas
       se a chama foi bela e alta?
       Em meio aos toros que desabam,
       cantemos a canção das chamas!

       Cantemos a canção da vida,
       na própria luz consumida...


Inverno

       

         Inverno
                Rejane (Mel) Britto

         Quem sabe
         viver no Alaska
         Por dias, 
         noites e tardes
         Morar 
         dentro de um iglu

         Abrigo 
         em meio à nevasca
         Trajando 
         a língua que arde
         E envolve 
         o teu corpo nú


*Todos os direitos reservados
Direitos Autorais – Lei Federal n º 9.610/98

Percepções

    s e n t i d o s e n t i d o s e n t i d o s e n t i d o s e n t i d o s

               P e r c e p ç õ e s

            Vejo . . . 

            seu  sorriso  gostoso
            largo  e  envolvente
            Jogos  infantis


            Ouço . . . 

            sua  voz  murmurante
            mansa  e  delirante
            Sussurrantes  ardis


            Toco . . . 

            seu  corpo  viçoso
            rijo  e  contundente
            Posturas  varonis


            Inspiro . . . 

            seu  cheiro  marcante
            forte e  irradiante
            Perfumes  viris


            Provo . . . 

            seu  sabor  vigoroso
            doce  e  inebriante
            Licores  de  anis


            Gozo . . . 

            entrega  fervilhante
            sensual  e  extasiante
            Ondulantes  quadris


                         por  Rejane (Mel) Britto

    s e n t i d o s e n t i d o s e n t i d o s e n t i d o s e n t i d o s

Real_idade

Haigatos

poesia lúdica, brincando de haicais


pompa insolente
de laço desatado
a gata faz fita

...

olhar matreiro
do gatuno silente
- adeus novelo -

...

pompom macio
na almofada de feltro
mio felpudo


     por Rejane (Mel) Britto

Teoria Literária:
Haikais (ou haicais) são versos minimalistas japoneses de estrutura rígida e elaboração complexa.
Compõem-se de 3 versos com o total de 17 sílabas (no formato 5-7-5), proibe-se títulos, sempre tratando de observação de eventos da Natureza.
Há vários sites que tratam do tema de forma mais ampla, para quem quiser pesquisar.
Um dos grandes nomes nos Haikais é o poeta japonês Matsuo Bashô, do século 17.
Movimento similar, o Poetrix, foi introduzido no Brasil por Goulart Gomes, com 3 versos + título obrigatório , temas livres ao estilo ocidental, com o máximo de 30 sílabas poéticas (website do MI Poetrix).
A "brincadeira" dos Haigatos (haicais sobre gatos) surgiu há alguns anos por idéia do ator mímico e poeta Jiddu Saldanha.


dos meus poetas preferidos...

Eu era criança e costumava passar as tardes na livraria do meu tio, na Rua da Praia, sempre que ia a Porto Alegre, lendo gibis - da Mafalda (do Quino) e Asterix (Goscinny e Uderzo) - e ouvindo os adultos que lá se encontravam aos finais de tarde.
Guardo a lembrança do velhinho simpático que me pedia pra buscar o que ele insistia em chamar de 'água com bolinhas' (água mineral com gás) na lancheria do Matheus, algumas portas ao lado.
Anos depois, já adolescente, descobri seu nome: Mário Quintana

"Mario Miranda Quintana - Natural do Alegrete, RS. É o poeta das coisas simples. Despreocupado em relação à crítica, fazia poesia porque "sentia necessidade", segundo suas próprias palavras. Em 1928 ingressou no jornal O Estado do Rio Grande. Após ter participado da Revolução de 1930, mudou-se para o Rio de Janeiro, retornando em 1936 para a Livraria do Globo, em Porto Alegre, onde trabalhou sob a direção de Erico Verissimo. Traduziu Charles Morgan, Rosamond Lehman, Lin Yutang, Proust, Voltaire, Virginia Woolf, Papini, Maupassant. Em sua poesia há um constante travo de pessimismo e muito de ternura por um mundo que, parece, lhe é adverso. Obras: A Rua dos Cataventos (1940), Canções (1945), Sapato Florido (1947), poemas em prosa; Espelho Mágico (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950). Em 1962 reuniram-se suas obras em um único volume, sob o título Poesias. Outras obras: Pé de Pilão (1968), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), Nova Antologia Poética (1982), Batalhão das Letras (1984)."

Quintana morreu aos 87 anos em 5 de maio de 1994, na cidade de Porto Alegre.
A morte o obrigou a parar de "poetar", mas sua poesia permanece viva em minha alma.

Eu Escrevi Um Poema Triste
Mário Quintana

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!